As férias escolares são sinônimo de descanso, telas ligadas por mais tempo e, infelizmente, também de mais risco. Dados apurados junto a órgãos de segurança pública apontam um crescimento de 78% nos casos de crimes digitais contra crianças e adolescentes em São Paulo durante o período de recesso escolar, quando o tempo de exposição na internet praticamente dobra em muitos lares. O fenômeno preocupa autoridades, escolas e famílias, e reacende o debate sobre segurança digital infantil no estado.
Segundo especialistas ouvidos por veículos de segurança pública, o aumento das denúncias nas férias não é uma coincidência estatística. Trata-se de uma consequência direta da rotina domiciliar: sem aula, sem horários fixos e, muitas vezes, sem supervisão constante dos responsáveis, crianças e adolescentes passam mais horas em jogos on-line, redes sociais e aplicativos de mensagens. Esse é exatamente o ambiente que agentes mal-intencionados procuram para agir.
Por que os crimes digitais crescem nas férias
Durante o ano letivo, a rotina escolar naturalmente limita o tempo de tela. Nas férias, esse controle se dilui. Assim, plataformas de jogos populares entre o público infantil, incluindo títulos como Roblox, tornam-se porta de entrada para abordagens de risco. Consultores de tecnologia da informação já alertaram, em reportagens sobre o tema, que mesmo jogos voltados ao público infantil podem ser acessados por adultos mal-intencionados disfarçados de jogadores comuns, o que exige atenção redobrada dos pais mesmo em ambientes aparentemente inofensivos.
Além disso, o cenário nacional já vinha mostrando uma trajetória de alta antes mesmo do recorte das férias em São Paulo. Levantamentos da Safernet apontam que o país chegou a registrar mais de 71 mil denúncias de imagens de abuso e exploração infantil on-line em um único ano, um salto superior a 77% em relação ao período anterior e o maior volume em quase duas décadas de monitoramento. O dado nacional ajuda a contextualizar o aumento de 78% observado especificamente em território paulista durante o recesso escolar.
O trabalho das autoridades em São Paulo
Diante desse cenário, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo tem investido em estruturas específicas de combate a esse tipo de crime. Um dos exemplos é o Núcleo de Observação e Análise Digital, o Noad, criado justamente para enfrentar a violência digital contra crianças e adolescentes. De acordo com dados oficiais, o núcleo mantém centenas de alvos sob monitoramento contínuo, já contabiliza mais de trezentas vítimas resgatadas e soma dezenas de acionamentos envolvendo outros estados, números que demonstram a escala do problema enfrentado pelas autoridades paulistas.
Uma investigação conduzida pelo próprio núcleo revelou ainda um dado que chama atenção: o perfil dos investigados é majoritariamente adolescente. A coordenadora do Noad já afirmou publicamente que a grande maioria dos investigados, próxima da totalidade dos casos, é composta por adolescentes, enquanto as vítimas mais frequentes são meninas entre 6 e 14 anos. Esse dado reforça que o combate ao crime digital infantil não pode se limitar à ideia de um predador adulto isolado; trata-se de um fenômeno mais complexo, que envolve também jovens aliciando outros jovens dentro das mesmas plataformas.
Vale destacar, ainda, que a integração entre órgãos tem sido tratada como prioridade em 2026. Recentemente, representantes da SSP-SP se reuniram com o Ministério Público do Estado para discutir o fortalecimento da atuação conjunta contra a violência digital infantil, o que sinaliza que o tema segue no radar institucional mesmo fora do período de férias.
Os riscos mais comuns durante o recesso escolar
Entre os principais riscos enfrentados por crianças e adolescentes durante as férias, destacam se:
- Aliciamento em jogos on-line, incluindo plataformas voltadas ao público infantil
- Contato com desconhecidos em redes sociais e aplicativos de mensagens
- Compartilhamento inadvertido de fotos e informações pessoais
- Exposição a conteúdo impróprio, violento ou de natureza sexual dentro de chats de jogos
- Aumento do tempo de tela sem qualquer tipo de supervisão
Ou seja, o problema não está apenas na quantidade de horas conectadas, mas principalmente na ausência de mediação adulta durante esse tempo. Por isso, especialistas insistem que o controle parental não deve ser visto como invasão de privacidade, e sim como uma camada básica de proteção digital para crianças, da mesma forma que se ensina a atravessar a rua com segurança.
Como proteger crianças e adolescentes nas férias
Diante do aumento expressivo de casos, algumas medidas práticas podem reduzir significativamente o risco de exposição:
Ativar o controle parental em celulares, tablets e consoles de jogos, ajustando o acesso conforme a idade da criança.
Conversar abertamente sobre os riscos da internet, sem gerar medo, mas explicando por que certos comportamentos on-line merecem cautela.
Ficar atento a sinais de mudança de comportamento, como isolamento repentino, segredo excessivo sobre o celular ou ansiedade ao usar determinados aplicativos.
Limitar o tempo de tela diário, especialmente em jogos com chat aberto entre jogadores desconhecidos.
Denunciar qualquer suspeita de aliciamento ou abuso aos canais oficiais, como o Disque 100 ou a delegacia especializada mais próxima.
Também é importante lembrar que a Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD, impõe obrigações às próprias plataformas voltadas ao público infantil, que precisam adotar mecanismos de proteção de dados e privacidade para menores de idade. Portanto, a responsabilidade não recai apenas sobre as famílias, mas também sobre as empresas de tecnologia que operam esses serviços no Brasil.
O papel da escola, da comunidade e do apoio jurídico especializado
Muitas escolas em São Paulo têm ampliado ações de conscientização digital antes do início das férias, preparando as famílias para o período de maior exposição. Ainda assim, quando o problema já acontece, buscar orientação jurídica especializada faz diferença.
Diante desse cenário, fica claro que o combate aos crimes digitais contra crianças e jovens em São Paulo exige uma atuação conjunta entre poder público, escolas, plataformas digitais e famílias. O aumento de 78% registrado durante as férias escolares não deve ser lido como um dado isolado, mas como um alerta recorrente que se repete a cada período de recesso, reforçando a necessidade de vigilância constante durante todo o ano.
É o caso do Dr. Jonatas Lucena, advogado especializado em Direito Digital e Crimes Cibernéticos, com mais de 20 anos de atuação em casos envolvendo internet, tecnologia e proteção de direitos no ambiente digital em todo o Brasil.

Perguntas frequentes
Por que os crimes digitais contra crianças aumentam nas férias escolares? Porque o tempo de exposição às telas cresce significativamente quando não há rotina escolar, muitas vezes sem supervisão constante dos responsáveis, o que é aproveitado por criminosos para se aproximar de crianças e adolescentes em jogos on-line e redes sociais.
Quais plataformas exigem mais atenção dos pais? Jogos on-line populares entre o público infantil, redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas estão entre os ambientes de maior risco, especialmente quando permitem chat aberto entre usuários desconhecidos.
Como denunciar um caso de crime digital contra criança ou adolescente em São Paulo? É possível denunciar pelo Disque 100, pela delegacia especializada em crimes cibernéticos mais próxima ou diretamente ao Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil de São Paulo.
O controle parental é suficiente para proteger a criança? O controle parental é uma camada importante de proteção, mas deve ser combinado com diálogo aberto, atenção a sinais de mudança de comportamento e limite de tempo de tela para ser realmente eficaz.
Quem são os principais responsáveis por esses crimes, segundo as investigações? Levantamentos recentes do Núcleo de Observação e Análise Digital de São Paulo indicam que a maior parte dos investigados também é formada por adolescentes, o que exige uma abordagem educativa ampla, e não apenas repressiva.





